WM: Quais são os principais desafios na carreira?
Thereza: São vários, mas talvez possa resumir assim:
- nunca parar de sonhar
- trabalhar bastante
- tem que ter muita disciplina e finalmente
- tem que saber compartilhar com os amigos e pessoas do grupo
WM: Quando e como surgiu a oportunidade da sra. ir para a Alemanha?
Thereza: Estava com 17 anos, isso foi em 1984 ou 1986. Fui chamada para o Staatiche Balletschule Berlin, O diretor do balé que atuava na época, o Martin Putikar, me selecionou. Fizemos fotos e mandamos também um vídeo para o diretor da Escola de Ballet de Leipzig. Lá fiz a escola para formação de bailarinos.
WM: Qual foi a principal diferença que existe para uma bailarina entre dançar em uma companhia brasileira e uma companhia alemã?
Thereza: A principal diferença é que com a União Européia é muito difícil conseguir um trabalho lá. Para você tirar o lugar de uma européia você tem que ser muito, muito boa mesmo.
WM: A adaptação foi difícil?
Thereza: Fui para a Alemanha Oriental antes da queda do muro de Berlim. Era a única brasileira por lá. Não foi fácil e a língua também foi um desafio.
WM: Por que a sra. decidiu ir para Cuba?
Thereza: Na realidade, estava quase terminando a escola de balé em Leipzig. O Fernando Alonso, diretor Companhia de Ballet Clássico de Camaguey - estava fazendo uma turnê por lá e foi até a escola. Ele me viu dançar e pediu para o Putikar (diretor) se podia me levar. Aceitei na hora. Era uma grande oportunidade acabar de me formar e já ter um trabalho.
WM: O que a mais impressionou lá?
Thereza: O que mais me impressionou em Cuba foi como as pessoas sabem dividir e respeitar. Precisa-se trabalhar muito. Nos fins-de-semana um ajuda o outro nas plantações de arroz, mandioca, etc. Eles dividem com os amigos.
WM: Qual é a diferença em relação à Alemanha?
Thereza: Na Alemanha Oriental não tinha essa coisa de afeto. Em Cuba todo mundo era mais solidário.
WM: A técnica varia de um lugar para outro?
Thereza: De certa forma varia sim. São pequenas diferenças. A européia tem um biótipo mais longilíneo. Já as latinas têm mais bumbum e por isso há técnicas um pouco diferentes, mas não deixa de ser a mesma coisa.
WM: O que a inspirou a criar a Associação Dançando Para Não Dançar?
Thereza: O Balé Nacional de Cuba. Vi como as pessoas atuavam em comunidade. Isso foi uma grande inspiração e exemplo.
WM: Há quanto tempo existe o projeto?
Thereza: O projeto existe há 11 anos. Começou no final de 1994, mas a associação foi formalmente registrada em1998.
WM: Onde ele atua?
Thereza: Atuamos em 12 comunidades do Rio de Janeiro.
WM: É perigoso trabalhar em um lugar assim?
Thereza: Sempre é, mas a comunidade respeita bastante o trabalho.
WM: A sra. conta com ajuda institucional de empresas?
Thereza: Contamos com o patrocínio da Petrobrás. Acordamos com a Lufthansa que anualmente cede passagens para nossas bailarinas que estão na Alemanhã. A Videofilmes, que nos auxilia com nossos materiais. As associações de moradores das comunidades atendidas. O Teatro Leblon, o curso Brasas, entre outros. Temos também apoio institucional do ministério da Cultura, por meio da Lei Ruanet, e do governo do Estado do Rio que vai nos conceder um espaço para a montagem de uma escola de dança do projeto.
WM: Quantas pessoas trabalham na Associação?
Thereza: Atualmente são 30 a 33 pessoas.
WM: Como é feita a seleção das crianças?
Thereza: Depende. Quando abrimos, por exemplo, 30 vagas e 30 crianças se candidatam, pegamos todas elas. Agora, quando abrimos 30 vagas e 200 crianças se candidatam, aí fazemos um teste que leva em conta o tipo físico, postura, alongamento etc, como ocorreu no morro da Mangueira.
WM: Pela sua experiência é possível resgatar qualquer jovem através da arte?
Thereza: Sem dúvida alguma. Com educação e arte é possível resgatar qualquer jovem. Não só a ele, mas as famílias também. Há um compartilhamento. Os familiares acabam voltando aos estudos e se capacitando profissionalmente. Por exemplo, por meio de algumas parcerias o projeto consegue convites e toda semana pais e filhos vão a espetáculos de dança, ao cinema, a teatro. As famílias passam também a ter uma vida cultural. Elas crescem e se desenvolvem com tudo isso.
WM: Além da Bárbara Melo, vocês já conseguiram enviar outros jovens para trabalhar e se aperfeiçoar no exterior?
Thereza: Para aperfeiçoamento já conseguimos enviar vários bailarinos. Francisca Soares ficou três anos em Berlim, na Alemanha. Agora estão lá Daiane e Paulicéia. Márcia Freire, que hoje está no Ballet Stagium, foi duas vezes para cursos de especialização de um ano em Cuba. Agora mesmo a Ingrid está indo para Nova York fazer um teste. Mas contratada por uma companhia estrangeira, por enquanto só a Bárbara Melo.
WM: Quantos anos dura a carreira de uma bailarina? Depois o que é possível fazer?
Thereza: Pode durar a vida inteira. Como bailarina profissional há algumas que conseguem atuar a vida inteira como é o caso da Alice Alonso, do Balé Nacional de Cuba. De um modo geral, cada um tem seu limite pessoal, situado entre 45 e 50 anos. Depois é possível continuar com várias outras atividades ligadas à dança, como professores, coreógrafos, diretores de companhias, coordenação. Ainda, outras áreas como produção de espetáculos, assessoria de imprensa, nutricionista, etc.
WM: Algum sonho que a sra. gostaria de realizar?
Thereza: Gostaria que o Projeto virasse uma escola de dança oficial do Estado. No Rio de Janeiro inteiro só existe uma escola de dança oficial, que é a Escola Maria Olenewa, mantida pela Fundação do Teatro Municipal.
WM: A sra. gostaria de deixar uma mensagem para nossas leitoras?
Thereza: Não desista nunca de seu sonho. Tudo é feito com muito trabalho.
WM: A sra. é casada, têm filhos?
Thereza: Sou casada e tenho dois filhos e minha filha também está envolvida com a dança.
WM: Qual é o seu hobby?
Thereza: Adoro assistir filmes. Principalmente de dança, balé.
WM: É possível viver de dança no Brasil?
Thereza: Com certeza! Tem que trabalhar muito. Nada cai do céu. Não é fácil, mas bailarino tem que dançar de tudo.
Mais Informações: Thereza Aguilar - projetodancando@ig.com.br
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Luizinho Moraes - luizinhomoraes@oi.com.br |