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Irlan
segue um caminho parecido. Há pouco mais de uma semana,
conquistou uma vaga na Cia Jovem El Paso de Dança e se
prepara para passar um mês em São Paulo. Dançar
no exterior, segundo a diretora da Cia, é uma questão
de tempo.
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Ele recebeu convites para fazer cursos de verão, mas quero
que ele termine os estudos e viaje quando estiver mais velho,
para trabalhar numa grande companhia - conta Mariza Estrella.
Filho
da dona-de-casa Maria da Penha e de Ivanildo da Silva, líder
operacional de uma transportadora, Irlan já decidiu seguir
os conselhos da diretora:
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Vou esperar a hora certa. Às vezes, parece que essas coisas
não estão acontecendo comigo. Foi tudo rápido,
no susto.
Foi
no susto também que ele começou a dançar.
Convidado por um primo, aos 8 anos Irlan passou a freqüentar
uma escola de balé da prefeitura, no Engenho de Dentro.
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Eu não tinha muitas atividades e convenci minha mãe
a deixar que eu fosse ter aulas. Ela ficava preocupada, porque
eu era pequeno e ia com meu primo. Gostei de cara e escolhi sapateado
e jazz - lembra.
Três
anos depois, uma de suas professoras o indicou para tentar uma
bolsa no Centro de Dança Rio, no Méier. Foi aí
que as coisas começaram a mudar.
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Passei no teste e comecei a fazer aulas de balé clássico.
Meu pai chegou a me dizer que era coisa de mulher - recorda.
Mas
Ivanildo não foi o único a estranhar as aulas clássicas.
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O Irlan gostava mesmo de sapateado e no início não
queria fazer balé. Com o tempo, foi entendendo que tinha
talento - conta a mãe.
Talento
que surpreendeu Mariza Estrella em Nova York:
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Não imaginava que ele fosse tirar o primeiro lugar. Me
emocionei quando o vi no palco. Eram 116 candidatos.
Irlan
carimbou o passaporte para os EUA depois de vencer um concurso
em Campos de Jordão. Como prêmio, ganhou US$ 500
que só poderiam ser sacados se ele fosse concorrer em Nova
York. Para levá-lo aos EUA, Mariza pediu ajuda ao Ministério
da Cultura, à prefeitura e aos professores de dança.
Até os vizinhos ajudaram com rifas. O sacrifício
valeu a pena. Além de voltar com o ouro, Irlan trouxe muitas
histórias na bagagem.
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Parecia um filme, porque eu nunca imaginei que fosse chegar lá.
Andei de avião e visitei vários lugares - conta
Irlan, que trouxe presentes para a família e dois objetos
que desejava há tempos: uma máquina digital e um
aparelho de CD:
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Não tomei sorvete nem comi pizza para economizar - recorda.
Filha
de um cozinheiro e de uma vendedora, a solista Bárbara
Melo Freire começou a dançar por acaso e teve que
convencer a mãe, Antônia, a deixá-la fazer
parte do projeto.
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Ela tinha medo que um tiroteio acontecesse no morro quando eu
estivesse voltando da aula, às 22h. Dizia sempre que eu
devia tomar cuidado e evitar passar perto das bocas-de-fumo -
lembra Bárbara.
Um
ano depois de ingressar no Dançando, ela fez prova para
a escola Maria Olenewa:
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Fiz sem esperança, mas passei. Depois de dois anos, apareceu
a bolsa para a Alemanha. Disse sim no ato, mas tive medo. Não
falava inglês ou alemão.
O
apoio de Thereza Aguilar, coordenadora do Dançando, foi
fundamental. Mas a menina deu trabalho.
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Meu primeiro ano foi horrível, não tinha amigos,
sentia frio e muita saudade. Só quando voltei ao Brasil
e vi que a minha realidade era o morro, passei a querer que meus
pais e a Thereza se orgulhassem - conta Bárbara.
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Bárbara
chegou em Berlim para continuar sua formação de
bailarina clássica há quatro anos, através
de um convênio entre a Staatliche Ballettschule Berlin (Escola
Estatal de Balé de Berlim) e o Dançando Para Não
Dançar, um projeto que utiliza a dança como instrumento
de transformação social, combinando o ensino do
balé clássico, teoria musical e um serviço
mais amplo de assistência social. Um oásis em comunidades
conhecidas internacionalmente pela violência e tráfico
de drogas.
Bárbara
conta sua experiência no projeto brasileiro: "Eu era
como toda criança no Brasil, ia para a escola de manhã,
passava a tarde brincando e depois dormia. Eu não sabia
o que era balé até que o projeto abriu uma escola
no Cantagalo. No começo, minha mãe não queria
que eu fosse lá, porque tinha que atravessar duas favelas
e passar por todas as bocas de fumo, mas fui com minha tia para
ver. Na hora, pedi para fazer o teste e passei. Minha mãe
primeiro ficou zangada, mas depois aceitou. Um ano depois fiz
prova para o Municipal e passei. Foi uma felicidade geral, no
projeto, na minha família. Foi uma sensação,
e com 15 anos fui escolhida para vir para cá."
Cooperação
de longa data
Johannes
Below, que morou oito anos em São Paulo antes de trabalhar
na Staatliche Ballettschule, diz que tudo começou na época
da ditadura militar brasileira. Thereza Aguilar, atual coordenadora
do projeto Dançando Para Não Dançar, foi
aluna da escola na época em que sua família permaneceu
exilada na Alemanha Oriental. A cooperação, no entanto,
só se tornou possível porque o cineasta brasileiro
Walter Salles financia toda a estada dos bailarinos e bailarinas
do projeto na Alemanha. Atualmente, Bárbara é a
única bolsista do Dançando Para Não Dançar
na escola berlinense.
A
relação da escola com a dança brasileira
vai além do projeto. A bailarina e pedadoga brasileira
Edna Azevedo é professora na Staatliche Ballettschule.
Na Alemanha desde 1987, Edna já trabalhou em instituições
conceituadas como a Ópera de Leipzig e a Deutsche Oper
de Berlim. Ela fala entusiasmada do projeto brasileiro, que conheceu
pessoalmente em fevereiro último: "É fantástico
porque proporciona a pessoas que normalmente não teriam
essa oportunidade e que poderiam até ir para o caminho
da delinqüência um contato com a dança clássica,
abrindo todo um horizonte de possibilidades. O nível técnico
e artístico das aulas é muito bom, o projeto tem
o cuidado de contratar ótimos professores, profissionais
do Teatro Municipal."
Edna,
no entanto, ressalta a importância para um profissional
da dança clássica de uma estada na Alemanha: "No
Brasil, ainda há um déficit muito grande quando
se trata de formação completa para o bailarino.
Lá não tem uma escola como essa, que ofereça
tudo, em um só lugar, das 8h00 às 18h00, com toda
a assistência. No Brasil é mais complicado, tem que
sair correndo, pegar o ônibus de um lugar para outro, voltar
correndo para o almoço, acaba ficando tudo pelo meio".
A
necessidade de uma formação completa
Fundada
em 1951, a Staatliche Balletttschule de Berlim foi uma das instituições
criadas após a Segunda Guerra Mundial, na tentativa de
reestruturar a vida cultural alemã na região leste
de Berlim. Durante a existência da República Democrática
Alemã (RDA), a escola se estabeleceu como um centro de
formação de profissionais da dança dentro
dos padrões de orientação e liberdade artística
vigentes na Alemanha Oriental, de regime comunista. Com a unificação
do país, passou por um período difícil de
reestruturação e adaptação à
nova realidade político-burocrática alemã.
Hoje, a Staatliche Ballettschule é reconhecida como um
celeiro de talentos para os palcos europeus. O atual diretor artístico
e ex-aluno da escola, Gregor Seyffert, causa furor com suas apresentações
e possui status de estrela maior na dança atual.
Até
mesmo para os padrões alemães, a Staatliche Ballettschule
tem um caráter exemplar. A preocupação maior
da instituição é a formação
completa do profissional de dança. Além das aulas
práticas, os alunos cursam na própria instituição
as matérias obrigatórias do currículo escolar
alemão. A escola procura evitar que a especialização
necessária para uma boa qualificação técnica
na dança resulte em um empobrecimento intelectual do profissional.
Bárbara
reconhece o valor de uma formação completa: "É
vergonhoso ser uma bailarina burra. Quando eu cheguei aqui, fiquei
um pouco assustada, todo mundo levava as aulas tão a sério,
eu acostumada com aquela bagunça. Com o tempo fui me acostumando,
aprendi o alemão e hoje acho muito importante ter essa
oportunidade de estar aqui estudando". Bárbara já
tem o diploma do segundo grau alemão e, em um ano e meio,
termina oficialmente o curso técnico com título
de bailarina profissional.
Disciplina
e integração
A
bailarina brasileira faz questão de destacar o apoio na
escola: "No começo foi difícil, mas morei aqui
no internato, fui devagar fazendo amizades e hoje já me
sinto integrada, já sei me comunicar e posso dar minhas
próprias opiniões", diz rindo para o namorado,
bailarino profissional alemão e ex-aluno da escola, que
veio acompanhar de perto a entrevista. A menina que saiu do Rio
sem muita idéia do que esperar da Alemanha mostra uma maturidade
e sensibilidade de quem passou com sucesso por um processo difícil
de integração: "No começo era o frio,
o tempo escuro, eu achava que não ia conseguir ficar. O
pessoal no Brasil dizia que eu não ia agüentar a saudade,
que os alemães eram fechados, duros. Eu acho que não
dá para falar assim, todo país tem gente de todo
tipo."
Johannes
Below não vê barreiras culturais na integração
dos brasileiros na escola. "A disciplina exigida pela dança
clássica é difícil para todo mundo, não
há nenhuma diferença neste sentido entre um bailarino
brasileiro e de outra nacionalidade."
Barbara
procura se adaptar da melhor forma possível: "Eu ouço
pouca música brasileira, senão começo a chorar.
Acho que a formação clássica me modificou,
quando tento dançar samba, por exemplo, e me olho no espelho,
desisto." Um vez por ano, quando passa um mês no Brasil,
Bárbara faz questão de repassar seu conhecimento
para outros alunos do projeto. "A Thereza me dá a
oportunidade de dar aulas para as meninas menores. Eu procuro
passar para elas a disciplina que aprendi aqui, às vezes
eu brinco, mas na hora da aula eu exijo muita seriedade."
Bárbara
tem uma carreira promissora pela frente. Com o diploma da Staatliche
Ballettschule e a bagagem adquirida nesse tempo de formação,
suas chances profissionais são as melhores. De tipo mignon,
ela pretende adquirir na Alemanha experiência profissional
por mais alguns anos e já tem algumas opções
de companhias de dança em vista.
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