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ENTREVISTA COM BÁRBARA (VIA E-MAIL) NO INÍCIO DE 2005

COMO VOCÊ SOUBE DO PROJETO DANÇANDO PARA NÃO DANÇAR ? EM QUE ANO ENTROU ?

Bom, eu fiquei sabendo do Dançando Para Não Dançar (DPND) através da Francisca que era minha vizinha e comentou sobre o assunto. Na época eu tinha 10 anos e não tinha a menor noção do que era "ballet".

COMO FOI A PRIMEIRA AULA? O QUE VOCÊ SENTIU ?
Primeiro, teve uma avaliação, para averiguar se eu tinha algum "talento". Depois a tia Thereza (a coordenadora do projeto) me deu a malha e disse o horário. Daí surgiu o primeiro problema. Eu estudava a tarde e saía da escola, na rua Barão de Ipanema, às 16h00, para chegar no Ciep de Ipanema às 16.15h. Três dias da semana, corria ladeira acima para fazer uma horinha de aula com a tia Thereza.

A minha primeira aula foi, com certeza, tudo o que eu não imaginava no balé. Achava que já ia chegar, colocar malha e sapatilha e sair dançando. A aula foi de alongamento, no chão, muito duro.

Como eram muitas meninas, a tia Thereza demorou mais ou menos um ano para saber quem eu realmente. Ela me confundia com a Márcia ou com a Cristina (minhas duas primas, que também entraram no projeto). Ela nunca acertava que eu era a Bárbara e isso me deixava muito triste. Mesmo assim, eu me esforçava ao máximo para obter pelo menos um olhar dela. Para falar a verdade, eu morria de medo dela.

O meu sonho nessa época era entrar na escola de dança (Maria Olenowa, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro) e aperfeiçoar a minha técnica. Ficar como a Valéria (também aluna do projeto que iniciou um pouco antes de Bárbara e já havia passado para a escola de dança) que eu tanto admirava. Aos poucos fui me destacando e ganhando olhar da tia Thereza. Depois de um ano de muito alongamento no chão, participei do primeiro espetáculo do Dançando, ao ar livre para um público enorme. Dançamos pela primeira vez junto com bailarinos do Teatro Municipal, consagrados nacional e internacionalmente. Fui conhecendo o que era balé de verdade e pude me espelhar numa primeira bailarina e não em uma das minhas coleguinhas. Consegui entrar na escola de dança e as portas começaram a se abrir. Meus sonhos começaram a aumentar e o desejo de poder fazer também as 1001 maravilhas que as bailarinas profissionais faziam, aumentavam cada dia mais.

VOCÊ IMAGINAVA QUE UM DIA VOCÊ PUDESSE SE TRANSFORMAR NUMA BAILARINA PROFISSIONAL ? COMO FOI ISSO PRA VOCÊ ?
Eu acho que quando pequena, nós que entramos no projeto tínhamos o sonho de se tornar, um dia, a primeira bailarina. Sonhar é bom e comigo também foi assim, não foi diferente. |Hoje sei que por muitas vezes esse caminho, esse sonho, te puxa para uma estrada tão longa e cansativa que muitas desistem no meio do caminho. Para mim, já não falta muito, esse ano vou poder realizar um dos sonhos de muitas meninas que é se formar na Europa (Alemanha).

O QUE O DANÇANDO MUDOU A SUA VIDA E DA SUA FAMÍLIA ?
Bom, o meu relacionamento com a família sempre foi bom. Da mesma forma que o balé me trouxe disciplina, cultura, educação e uma profissão, assim também foi com os meus familiares. Eles, como eu, pouco sabiam o que era a dança clássica, hoje em dia freqüentam teatros comigo, gostam e até comentam como foi linda a peça e a atuação das bailarinas. Hoje estão mais centrados nos seus compromissos.

COMO FOI PASSAR NA ESCOLA DE DANÇA DO TEATRO ?
Representou para mim a concretização do primeiro dos meus sonhos e objetivos. Quando a tia Thereza me escreveu para fazer a prova foi uma festa imensa dentro de mim. Eu pensei comigo mesma que essa é a minha chance de provar para ela que eu não estou aqui só para passar o tempo. E foi dito e feito, eu fui dando um passinho atrás do outro e conseguindo obter, a cada bimestre, uma nota mais alta do que a outra...

VOCÊ SENTIU OU PASSOU POR ALGUMA SITUAÇÃO DE PRECONCEITO SOCIAL NA ESCOLA, PELO FATO DE SER POBRE E VIVER NUMA FAVELA ? LÁ A MAIORIA É FILHINHA DE MAMÃE E PAPAI ?
Com certeza a pessoa que é pobre sempre pensa que por ser pobre e não ter nada, que as outras pessoas são todas metidas porque tem de tudo. No dançando fomos preparadas para isso. Nunca ninguém me faltou com respeito pelo fato de morar numa favela ou algo parecido. Mas se falasse, não me importaria. Eu já era vitoriosa por estar ali. No início eu ficava um pouco deprimida ao ver aquelas sapatilhas limpas e novas, todas aquelas frescurinha que eu não tinha, como bolsas especiais para sapatilhas, frasqueiras para isso ou para aquilo, enquanto eu só tinha o essencial mesmo. Mas eu não precisava do resto, não me fazia falta.

COMO FOI SUBIR NUM PALCO PELA PRIMEIRA VEZ PARA DANÇAR? E COMO É HOJE, DANÇAR AO LADO, COMO SOLISTA, DOS PRIMEIROS BAILARINOS DO TEATRO MUNICIPAL DO RIO ? E NA ALEMANHÃ, COMO FOI A SENSAÇÃO?
Quando subi no palco pela primeira vez fiquei muito nervosa e com muito medo de errar algo. Hoje em dia eu sei que posso (pelo menos tento) ter esse medo esse nervosismo sobre controle. Dançar como solista é uma responsabilidade muito grande, mas é uma sensação muito gostosa. É muito gratificante para mim que ainda sou estudante dançar do lado das feras do teatro. (OBRIGADA TIA E O PROJETO POR ESSA GRANDE OPORTUNIDADE). A primeira vez que eu dancei aqui na Alemanha também foi mágico, pois o palco era um sonho de tão grande. Muita gente e os aplausos... Nossa!... Foi demais.

COMO FOI A IDA PARA ALEMANHÃ ?
Dura, mais boa. Quando recebi a notícia fiquei super surpresa, pois não imaginava. Ter que deixar de lado o carinho de minha família, o feijão da mamãe, o pagode e as praias. Foi duro...Quero dizer ainda é muito duro, mais vale muito a pena.

QUANDO VOCÊ CHEGOU DE VOLTA AO BRASIL, PARA AS PRIMEIRAS FÉRIAS, COMO FOI ?
No dia em que chegamos em casa foi muito duro para nós duas. Aceitarmos mesmo de cara aquela realidade, pois aqui na Alemanha, como é um país de primeiro mundo, tínhamos de tudo. No Brasil tivemos colocar os pés no chão e aceitar o fato de sermos pobres e não termos tantas condições, como nós é oferecido aqui. Mais isso tudo isso passou logo, pois a nossa família era mais importante naquele momento para a gente. Nós chegamos ao Brasil de férias um ano depois.

COMO FOI A RECEPÇÃO LÁ ?
A recepção foi ótima. Família, amigos e vizinhos de braços aberto, é lógico. Lembro-me de todos os visinho me fazendo 1001 perguntas.

VOCÊ POUCO FALAVA A LÍNGUA, COMO FOI ENFRENTAR ESSA BARREIRA ?
Engraçado é que com os pés e as mãos nós conversávamos e riamos juntas (com as outras meninas). Na escola, para seguir as aulas foi duro, mas nada que os nossos esforços não conseguisse mudar...

COMO É A SAUDADE ?
Eu nunca soube o que era realmente isso, fui mesmo aprender quando estava aqui, e eu posso confirmar que é uma das coisas mais chatas e tristes que existe...

COMO É O RELACIONAMENTO COM AS COLEGAS ALEMÃS E ESTRANGEIRAS ?
Logicamente não são tão dadas e alegres como as brasileiras, mas são legais. Um pouco frias, mas eu as entendo. Elas não conhecem outra coisa a não ser o frio de não sei quantos graus abaixo de 0...

COMO ESTÃO SENDO AS AULAS ?
Muito puxadas, difíceis.

COMO ESTÁ A CARREIRA ? SOUBE QUE FOI CONVIDADA PARA DANÇAR 1º PAPEL DE GISELE. VIVA!!!
Pois é, Viva !!!! Mais é um trabalhão. Não é fácil, mas lógico que eu estou dando tudo de mim e até um pouquinho a mais do que tenho, para poder dançar com sucesso. Fui convidada para dançar no ano passado em Magdeburgo, uma peça chamada Schumanns Fantasie (As fantasias de Schumann).

QUANTO TEMPO MAIS VOCÊ FICA ESTUDANDO ?
Graças a Deus só este ano, até agosto. Não vejo a hora de sair trabalhando e dançando como profissional.

VOCÊ PENSA EM FICAR NA EUROPA OU VOLTAR PARA O BRASIL ? COMO É ESSE SENTIMENTO ?
É difícil explicar, mas eu quero primeiro começar por aqui e depois ir para o Brasil.



Registro no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente Nº 02 / 226 / 421