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COMO
FOI A PRIMEIRA AULA? O QUE VOCÊ SENTIU ?
Primeiro,
teve uma avaliação, para averiguar se eu tinha algum
"talento". Depois a tia Thereza (a coordenadora do projeto)
me deu a malha e disse o horário. Daí surgiu o primeiro
problema. Eu estudava a tarde e saía da escola, na rua
Barão de Ipanema, às 16h00, para chegar no Ciep
de Ipanema às 16.15h. Três dias da semana, corria
ladeira acima para fazer uma horinha de aula com a tia Thereza.
A
minha primeira aula foi, com certeza, tudo o que eu não
imaginava no balé. Achava que já ia chegar, colocar
malha e sapatilha e sair dançando. A aula foi de alongamento,
no chão, muito duro.
Como eram muitas meninas, a tia Thereza demorou mais ou menos
um ano para saber quem eu realmente. Ela me confundia com a Márcia
ou com a Cristina (minhas duas primas, que também entraram
no projeto). Ela nunca acertava que eu era a Bárbara e
isso me deixava muito triste. Mesmo assim, eu me esforçava
ao máximo para obter pelo menos um olhar dela. Para falar
a verdade, eu morria de medo dela.
O meu sonho nessa época era entrar na escola de dança
(Maria Olenowa, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro) e aperfeiçoar
a minha técnica. Ficar como a Valéria (também
aluna do projeto que iniciou um pouco antes de Bárbara
e já havia passado para a escola de dança) que eu
tanto admirava. Aos poucos fui me destacando e ganhando olhar
da tia Thereza. Depois de um ano de muito alongamento no chão,
participei do primeiro espetáculo do Dançando, ao
ar livre para um público enorme. Dançamos pela primeira
vez junto com bailarinos do Teatro Municipal, consagrados nacional
e internacionalmente. Fui conhecendo o que era balé de
verdade e pude me espelhar numa primeira bailarina e não
em uma das minhas coleguinhas. Consegui entrar na escola de dança
e as portas começaram a se abrir. Meus sonhos começaram
a aumentar e o desejo de poder fazer também as 1001 maravilhas
que as bailarinas profissionais faziam, aumentavam cada dia mais.
VOCÊ
IMAGINAVA QUE UM DIA VOCÊ PUDESSE SE TRANSFORMAR NUMA BAILARINA
PROFISSIONAL ? COMO FOI ISSO PRA VOCÊ ?
Eu
acho que quando pequena, nós que entramos no projeto tínhamos
o sonho de se tornar, um dia, a primeira bailarina. Sonhar é
bom e comigo também foi assim, não foi diferente.
|Hoje sei que por muitas vezes esse caminho, esse sonho, te puxa
para uma estrada tão longa e cansativa que muitas desistem
no meio do caminho. Para mim, já não falta muito,
esse ano vou poder realizar um dos sonhos de muitas meninas que
é se formar na Europa (Alemanha).
O QUE O DANÇANDO MUDOU A SUA VIDA E DA SUA FAMÍLIA
?
Bom,
o meu relacionamento com a família sempre foi bom. Da mesma
forma que o balé me trouxe disciplina, cultura, educação
e uma profissão, assim também foi com os meus familiares.
Eles, como eu, pouco sabiam o que era a dança clássica,
hoje em dia freqüentam teatros comigo, gostam e até
comentam como foi linda a peça e a atuação
das bailarinas. Hoje estão mais centrados nos seus compromissos.
COMO
FOI PASSAR NA ESCOLA DE DANÇA DO TEATRO ?
Representou
para mim a concretização do primeiro dos meus sonhos
e objetivos. Quando a tia Thereza me escreveu para fazer a prova
foi uma festa imensa dentro de mim. Eu pensei comigo mesma que
essa é a minha chance de provar para ela que eu não
estou aqui só para passar o tempo. E foi dito e feito,
eu fui dando um passinho atrás do outro e conseguindo obter,
a cada bimestre, uma nota mais alta do que a outra...
VOCÊ
SENTIU OU PASSOU POR ALGUMA SITUAÇÃO DE PRECONCEITO
SOCIAL NA ESCOLA, PELO FATO DE SER POBRE E VIVER NUMA FAVELA ?
LÁ A MAIORIA É FILHINHA DE MAMÃE E PAPAI
?
Com
certeza a pessoa que é pobre sempre pensa que por ser pobre
e não ter nada, que as outras pessoas são todas
metidas porque tem de tudo. No dançando fomos preparadas
para isso. Nunca ninguém me faltou com respeito pelo fato
de morar numa favela ou algo parecido. Mas se falasse, não
me importaria. Eu já era vitoriosa por estar ali. No início
eu ficava um pouco deprimida ao ver aquelas sapatilhas limpas
e novas, todas aquelas frescurinha que eu não tinha, como
bolsas especiais para sapatilhas, frasqueiras para isso ou para
aquilo, enquanto eu só tinha o essencial mesmo. Mas eu
não precisava do resto, não me fazia falta.
COMO
FOI SUBIR NUM PALCO PELA PRIMEIRA VEZ PARA DANÇAR? E COMO
É HOJE, DANÇAR AO LADO, COMO SOLISTA, DOS PRIMEIROS
BAILARINOS DO TEATRO MUNICIPAL DO RIO ? E NA ALEMANHÃ,
COMO FOI A SENSAÇÃO?
Quando
subi no palco pela primeira vez fiquei muito nervosa e com muito
medo de errar algo. Hoje em dia eu sei que posso (pelo menos tento)
ter esse medo esse nervosismo sobre controle. Dançar como
solista é uma responsabilidade muito grande, mas é
uma sensação muito gostosa. É muito gratificante
para mim que ainda sou estudante dançar do lado das feras
do teatro. (OBRIGADA TIA E O PROJETO POR ESSA GRANDE OPORTUNIDADE).
A primeira vez que eu dancei aqui na Alemanha também foi
mágico, pois o palco era um sonho de tão grande.
Muita gente e os aplausos... Nossa!... Foi demais.
COMO FOI A IDA PARA ALEMANHÃ ?
Dura,
mais boa. Quando recebi a notícia fiquei super surpresa,
pois não imaginava. Ter que deixar de lado o carinho de
minha família, o feijão da mamãe, o pagode
e as praias. Foi duro...Quero dizer ainda é muito duro,
mais vale muito a pena.
QUANDO VOCÊ CHEGOU DE VOLTA AO BRASIL, PARA AS PRIMEIRAS
FÉRIAS, COMO FOI ?
No
dia em que chegamos em casa foi muito duro para nós duas.
Aceitarmos mesmo de cara aquela realidade, pois aqui na Alemanha,
como é um país de primeiro mundo, tínhamos
de tudo. No Brasil tivemos colocar os pés no chão
e aceitar o fato de sermos pobres e não termos tantas condições,
como nós é oferecido aqui. Mais isso tudo isso passou
logo, pois a nossa família era mais importante naquele
momento para a gente. Nós chegamos ao Brasil de férias
um ano depois.
COMO
FOI A RECEPÇÃO LÁ ?
A
recepção foi ótima. Família, amigos
e vizinhos de braços aberto, é lógico. Lembro-me
de todos os visinho me fazendo 1001 perguntas.
VOCÊ POUCO FALAVA A LÍNGUA, COMO FOI ENFRENTAR
ESSA BARREIRA ?
Engraçado
é que com os pés e as mãos nós conversávamos
e riamos juntas (com as outras meninas). Na escola, para seguir
as aulas foi duro, mas nada que os nossos esforços não
conseguisse mudar...
COMO
É A SAUDADE ?
Eu
nunca soube o que era realmente isso, fui mesmo aprender quando
estava aqui, e eu posso confirmar que é uma das coisas
mais chatas e tristes que existe...
COMO É O RELACIONAMENTO COM AS COLEGAS ALEMÃS
E ESTRANGEIRAS ?
Logicamente
não são tão dadas e alegres como as brasileiras,
mas são legais. Um pouco frias, mas eu as entendo. Elas
não conhecem outra coisa a não ser o frio de não
sei quantos graus abaixo de 0...
COMO
ESTÃO SENDO AS AULAS ?
Muito
puxadas, difíceis.
COMO ESTÁ A CARREIRA ? SOUBE QUE FOI CONVIDADA PARA
DANÇAR 1º PAPEL DE GISELE. VIVA!!!
Pois
é, Viva !!!! Mais é um trabalhão. Não
é fácil, mas lógico que eu estou dando tudo
de mim e até um pouquinho a mais do que tenho, para poder
dançar com sucesso. Fui convidada para dançar no
ano passado em Magdeburgo, uma peça chamada Schumanns Fantasie
(As fantasias de Schumann).
QUANTO TEMPO MAIS VOCÊ FICA ESTUDANDO ?
Graças
a Deus só este ano, até agosto. Não vejo
a hora de sair trabalhando e dançando como profissional.
VOCÊ
PENSA EM FICAR NA EUROPA OU VOLTAR PARA O BRASIL ? COMO É
ESSE SENTIMENTO ?
É
difícil explicar, mas eu quero primeiro começar
por aqui e depois ir para o Brasil.
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